segunda-feira, 16 de maio de 2016

REVIEW: "A Duquesa de Mântua"


Autora: Joana Bouza Serrano
Número de páginas: 267
PVP - 19,90€

No dia 1 de Dezembro de 1640, por entre as armas dos fidalgos e a exaltação popular, a Duquesa de Mântua assoma corajosamente à varanda do Palácio Real, em Lisboa, tentando travar o golpe de Estado que estava em vias de pôr fim a seis décadas de domínio castelhano. Margarida de Mântua chegara a Lisboa em 1634, com a incumbência de governar o reino em nome de Filipe IV de Espanha. Nesse período conturbado, marcado por revoltas populares contra o aumento dos impostos e pelos constantes ataques ao império colonial português por parte dos inimigos da Monarquia Hispânica, Filipe IV e os seus conselheiros haviam decidido enviar para Lisboa alguém cuja lealdade não pudesse ser posta em causa: uma princesa de sangue real, prima do monarca e bisneta de duas infantas portuguesas, que crescera na corte de Saboia, embalada pelo mito do avô espanhol, o poderoso Filipe II, que reinara sobre o maior império que jamais existira. 

O VEREDICTO:
Sou um apaixonado por história. Desde pequenino que gosto de saber tudo sobre tudo. Gosto de estudar e sim, mesmo tendo passado pela fase "futebol" em que andava sempre atrás da bola nunca deixei de ler, chegando até a levar os manuais comigo nas férias de verão.
I'm that weird! 
Li, portanto, nestas três décadas de existência, vários livros de história, tendo chegado à conclusão que destes existem apenas quatro tipos:

- O Intelectual:
Escrito por quem sabe, indicado para as salas de aula;

- O Pseudo-Intelectual:
Aquele livro que se leva muito a sério, com muito trabalho de campo por detrás mas com uma linguagem obsessivamente académica;

- O Ficcional:
Factos históricos com muuuuuuita imaginação à mistura;

- O Acessível:
Com uma pesquisa rigorosa por detrás mas adequado ao grande público e não só aos amantes de história. Com uma linguagem descontraída e acessível. 

O livro de Joana Bouza Serrano encaixa-se, felizmente, nesta última categoria. Embora seja fácil de ler, como um romance, não se trata de uma biografia romanceada.

Conhecia muito superficialmente a história da Duquesa de Mântua e depois destas 221 páginas (com 42 páginas extra de anexos e fontes) posso-me considerar um entendido. 
Além de muito bem escrito e fundamentado - a autora apoia-se em excertos de cartas para suportar a narrativa - contamos ainda com mapas, genealogias, uma cronologia do que se passava tanto no Império Lusitano como em Espanha e Itália desde 1578 a 1655 (data da morte de Margarida de Saboia) para nos situarmos durante a leitura (e dissipar qualquer dúvida que entretanto nos assolasse), notas e uma vasta bibliografia.
Ficamos assim a conhecer Margarida, uma bebé que nasceu «linda e gorda» fruto de um grande amor e cumplicidade de seus pais e que era mais parecida com o seu progenitor, o duque Carlos Manuel, «no tom azeitona, na delicadeza do rosto» na afabilidade, capacidade comunicativa, «humor variável», inteligência e ambição. Ficamos a saber que tinha um avô amoroso e preocupado (o que não era assim tão comum naquela altura, com tantos herdeiros e disputas), que perdeu a mãe aos oito anos de idade e era versada em espanhol, francês, italiano e latim. Ficamos igualmente a saber que se tornou uma jovem «de porte majestoso, com a fronte alta e olhar determinado», que o casamento com Francisco Gonzaga foi muito desejado (e ansiado!) por si (mas não tanto pelo pai) e que os primeiros momentos de intimidade entre o casal foram motivo de regozijo da parte do noivo, que não se coibiu de transmitir nas cartas ao irmão e mãe o quanto a sua esposa o agradava, mesmo esta não sendo «de uma beleza extraordinária». Descobrimos a sua súbita e prematura viuvez e o desgosto por tudo o que um surto de varíola lhe roubou. Ficamos também a conhecer as conspirações, conluios, negociações matrimoniais, ciúmes, tiradas dramáticas, divergências, intrigas, atritos, problemas de sucessão e actos de coragem e nobreza da época.

É um livro riquíssimo, feito com cuidado, carinho e, vá, uma dose industrial de paciência.
Recomendo-o vivamente!
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