quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

REVIEW: "Serena" (Livro)


FICHA TÉCNICA:
Autor: Ron Rash
Editora: Editorial Presença
Número de páginas: 368
P.V.P. - 16,90€ (Neste momento encontra-se com um desconto de 10% no site da Editorial Presença - 15,21€).

SINOPSE OFICIAL:
Início da Grande Depressão. George Pemberton está de regresso à Carolina do Norte depois de três meses passados em Boston. Traz consigo a sua mulher, Serena, e os planos de ambos para se tornarem - unindo os recursos de cada um - barões da indústria madeireira. Em poucos anos o império cresce, gerido em parte pela mão implacável e sem escrúpulos de Serena, que não hesita em eliminar qualquer ameaça às suas ambições. Quando descobre que não poderá ter filhos e que George tem um filho de uma anterior relação, Serena fica determinada a não deixar que nada nem ninguém se intrometa entre si e o marido. 

O VEREDICTO:
"Um dos livros mais admiráveis do ano." 
The New York Times

"Um dos melhores livros do ano."
Amazon.com

"Melhor Livro do Ano!"
The Washington Post

As expectativas eram altas e não foram defraudadas.
Serena é pura poesia.

Ron Rash brinca com as palavras; encadeia-as tão sabiamente que nos deixa absortos, num mar de poemas em forma de prosa.
A sua escrita é pautada pela crueza e pela delicadeza, bem ao estilo de Cormac McCarthy ("A Estrada", "O Conselheiro", "Este País Não é Para Velhos"). Tão depressa descreve espaços com "uma pilha de sacos a apodrecer" como a mais maravilhosa das paisagens naturais, com luz a "penetrar através da folhagem como se de camadas de gaze se tratasse" e bosques "que cheiravam como se tivesse acabado de chover".
No decorrer da narrativa encontramos sempre pequenas observações que nos cativam com a sua simplicidade e assertividade, convidando-nos, gentilmente, à introspeção:

"...o que faz a perda de alguém que amamos tornar-se tolerável mão é lembrarmo-nos da pessoa mas sim esquecê-la. Primeiro, esquecer pequenos detalhes, o cheiro do sabonete com que a mãe se banhava, a cor do vestido que usava para ir à igreja; depois, passado um tempo, o som da sua voz, a cor do seu cabelo. Espantava-a tudo o quanto se podia esquecer, e tudo o que se esquecia tornava essa pessoa menos viva dentro de nós até que por fim podia suportar-se a perda. Mais tarde, podemos permitir-nos recordar, podemos até querer recordar. Contudo, mesmo nessa altura, os sentimentos dos primeiros dias poderiam regressar e fazer-nos lembrar que a dor ainda continuava lá, qual arame farpado alojado no cerne de uma árvore."

"Ocorreu-lhe como era reconfortante comer nos dias difíceis porque recordava às pessoas que tinha havido outros dias, dias bons, em que se havia comido as mesmas coisas. Lembrava-nos de que havia dias bons na vida, quando nada mais o fazia."

"...um lugar onde tinha acontecido uma coisa tão terrível não devia continuar a existir. A própria terra não o devia tolerar."
(Com esta, dei por mim a pensar, inevitavelmente, em Auschwitz e nas "procissões" que por lá proliferam neste momento. Bem sei que "os povos que não conhecem a sua história estão condenados a repeti-la", mas será que revisitar de forma amiúde uma página tão negra dos anais da nossa civilização tem algum efeito apaziguador, absolvente? 
Os campos de concentração envergonham todos nós. Todos os que não são loiros de olhos azuis e todos os que são, efectivamente, loiros de olhos azuis. Vitimam a nossa consciência colectiva, que está manchada eternamente com uma nódoa de sangue que encarde a nossa alma e não nos permite, de maneira nenhuma, olvidar os hediondos crimes contra a diversidade, contra a humanidade, contra a vida, propriamente dita. Mas não seria, porventura, mais construtivo apagar de vez a imagem de sofrimento dos que tanto por lá penaram? Dar um desfecho aos sobreviventes, sem os obrigar a revisitar os seus próprios fantasmas? Não seria - pergunto eu - mais produtivo dar uma nova vida ao lugar onde tantas vidas foram brutalmente ceifadas? Criar novas lembranças, novas memórias?)

"Queremos o que está neste mundo, mas também queremos o que não está."

Introspeções à parte, é uma história impressionante e ritmada, focada na ganância impiedosa de um casal e tudo o que esta desencadeia. Uma hecatombe no tempo da grande Depressão.
De que atrocidades seríamos capazes para conquistar o que mais almejamos, a que princípios renunciaríamos? Que limites estaríamos dispostos a transpor? Que leis não nos dariam pejo violar?
Apesar de todos os personagens serem bem construídos é a protagonista - que tem tanto de sinistra como fascinante - que nos conduz por uma estrada sórdida repleta de atrocidades, esquemas e planos calculistas. É uma personagem feminina forte que domina toda a trama. Serena é intrépida e enigmática, com toda uma aura de misticismo a pairar sobre si. É manipuladora, mas ao mesmo tempo que nos aterroriza com a sua total falta de escrúpulos (quem é que gosta de uma pessoa assim?) não deixa de nos parecer admirável (how weird is that?).

SERENA não é, pois, um livro alegre. É um bom livro que nos fala da ambição cega e desmedida ao mesmo tempo que nos guia pelas mais belas paisagens da Carolina do Norte.
É a quarta obra de Ron Rash e um sério candidato a melhor livro lido em 2015.
Vale (mesmo) muito a pena!
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