sábado, 2 de novembro de 2013

Entrevista a Alexandra Rocha, a protagonista de "O Frágil Som do Meu Motor"


Já se encontra disponível no ZON Videoclube O FRÁGIL SOM DO MEU MOTOR, longa-metragem de estreia de Leonardo António que segue a história de Gabriela, uma enfermeira que se envolve numa intensa relação extraconjugal com o possível suspeito num misterioso caso de assassínios em série. 
Na sequência deste lançamento tivemos a oportunidade de entrevistar a simpática protagonista deste thriller, a bracarense Alexandra Rocha, que partilhou connosco diversas curiosidades em relação ao filme e atraveu-se mesmo, qual Tarantino, a revelar o seu Top 10 de filmes favoritos do ano corrente.

CLOSE UP! O que a atraiu no papel de Gabriela?
ALEXANDRA ROCHA Gostei muito do guião, da equipa que estava ligada ao projecto e fiquei logo com vontade de aceitar e mergulhar na vida da Gabriela, mas o que realmente me “seduziu” foi o facto de ser um thriller. A história em si podia ser apresentada como mais uma aventura banal, mas o Leonardo preferiu dar-lhe um twist e criar algo diferente, que nos prende e nos deixa em alerta, sentados na pontinha da cadeira sempre à espera do que vai acontecer a seguir.


CLOSE UP! - Quais os desafios que a personagem lhe impôs?
ALEXANDRA ROCHA Tantos! Desafios físicos, emocionais… foi mais complexo do que tinha imaginado. A Gabriela não é só aquilo que vê à primeira vista e não me foi fácil conseguir percebê-la: “porque é que ela se entregava assim ao perigo e ao desconhecido?”.
Mas principalmente, compreender uma mulher normal e dedicada que trai um marido paraplégico com um homem que não conhece e que a obriga a estar vendada e que pode ser um assassino... Este foi o meu grande desafio. De um lado tinha uma mulher sensível, com uma profissão dura, preocupada com um marido que atravessa uma fase muito difícil. Marido que ela tenta compreender e ajudar. Por outro lado, uma mulher solitária, mal-amada, que luta por tudo para não se deixar envolver sentimentalmente. Mas também uma mulher que a certa altura desiste de tudo isso e se deixa ir num envolvimento tão fora do vulgar e ao mesmo tempo investe no “amigo” de longa data... Tive muita dificuldade em compreendê-la. Cheguei a achar a Gabriela uma tontinha que brinca com o fogo... Depois percebi (senti) que todos nós temos fases da vida em que nos contradizemos constantemente e que somos capazes de qualquer coisa para que a vida faça sentido. E, já diz o povo, “de louco todos temos um pouco”... Penso que nalgum ponto se virmos com atenção todas as “Gabrielas”, “Marias”, “Franciscos” e “Bernardos” vamos ver que em algum ponto, mesmo que ligeiro, nos podemos identificar. Quando li o guião senti logo que ia ser complicado para mim. Talvez porque temos sempre aquela ideia de nos catalogarmos como se fôssemos A, B, C... percebi logo que não a ia conseguir catalogar facilmente. E tudo isto foi complementado pela parte física: três meses com aulas intensivas de tango, as cenas violentas, o lidar com o frio de rachar (pois muitas cenas foram gravadas na neve) e o ter de esperar o inesperado: por mais que as coisas estejam planeadas e controladas há sempre algo que acontece e que foge das nossas mãos. Mas às vezes são estes inesperados que nos deixam as histórias mais engraçadas de recordar.


CLOSE UP! - E de que outras formas se preparou para o papel?
ALEXANDRA ROCHA De diversas formas. Pesquisei muito sobre a profissão da Gabriela, lidar com o dia-a-dia de uma enfermeira especialista numa unidade de queimados… É um ambiente de trabalho muito pesado! Ficou-me uma admiração enorme pelas pessoas que realmente têm este trabalho, que todos os dias são fortalezas pelas pessoas que estão a passar por um momento horrível, com dores insuportáveis... Só de me lembrar, fico arrepiada! Claramente, eu não teria estofo…!
“Estudei” muito esta questão da motivação dela para ceder assim ao perigo e ao desconhecido, que era o maior enigma para mim. Falei com muitas mulheres casadas, solteiras, divorciadas de várias idades, quis perceber o que é que para cada uma delas seria uma razão para trair, para perder a cabeça. E isso ajudou-me muito, porque percebi que cada um de nós tem “gatilhos” diferentes. No caso da Gabriela era a necessidade urgente de se sentir mais que uma máquina, mais que um ser amorfo que só serve para cuidar dos outros, de se sentir viva e se sentir mulher outra vez.


CLOSE UP! - Existiram muitas alterações entre o primeiro esboço que leu e o resultado final?
ALEXANDRA ROCHA Quase nenhumas. O Leonardo António [realizador e argumentista] manteve-se muito fiel ao que tinha traçado. Claro que me refiro à versão original do filme que foi para fora do país e que foi catalogada pelo The Guardian como “HOT!”, não à versão comercializada pela ZON Audiovisuais. Pois, tal como acontece em muitos filmes estrangeiros, há uma versão mais comercial ou reduzida, no fundo, adaptada ao meio que a vai exibir e, depois, nos DVD podemos ver as cenas cortadas ou até mesmo as versões “Director’s cut”.


CLOSE UP! - Pode revelar-nos alguma história engraçada que decorreu nos bastidores do filme?
ALEXANDRA ROCHA Ui, tantas situações assim! Recordo-me, por exemplo, do dia em que fomos para a Régua filmar e estava muito mau tempo pelo país todo. Havia uma série de estradas cortadas e parte da equipa não conseguiu ir, nomeadamente a que levava as alianças da Gabi e do Pedro. Já íamos a meio da viagem quando soubemos. Pouco tempo depois estávamos parados numa povoação pequena, toda inundada e a única loja que encontrámos aberta foi uma “Loja dos 300” quase a fechar. Então estava eu, acompanhada por quatro homens (produtor, realizador, director de arte e o Gustavo Vargas, actor que fazia de meu marido) a experimentar sob pressão uma aliança. Não sei se foi do stress da situação, o certo é que a certa altura o senhor da loja diz-me aparte: “A menina só casa se quiser!”
Por causa do mau tempo as rodagens na Régua foram ricas nestes episódios. Uma das pessoas que não conseguiu chegar lá foi a maquilhadora. Não tínhamos quase nada para além daquelas coisas que as meninas normalmente têm na carteira...mas há o racord, certo? Nunca me vou esquecer de, nesse dia, foi o João Cavaleiro [diretor de arte] que me deu o toque final na maquilhagem quando fez o traço nos olhos (tipo eyeliner) com caneta de feltro preta (daquelas boas, dos artistas)... quase seca!! Mas tudo se fez! E é disto que eu falo quando digo que trabalhei com uma equipa fantástica. Nada foi impossível!
Há também aquela cena em que a Gabi entra no carro, cheia de pressa para arrancar. Por questões de posicionamento da câmara conjugado com o facto de eu não ser muito alta, os meus pés não chegavam para carregar na embraiagem até ao fim. “Na boa Alexandra, é só ligares o carro e cortamos, não precisas de arrancar, o carro fica em ponto morto”. A minha cara quando ligo o carro e afinal estava engatado... Lindo!
Uma das mais giras, passou-se com o actor João Villas-Boas. Era o plano dele, a cena em que o Vitor deixa a Gabi no hospital. É o momento do primeiro beijo. Há o beijo, há aquele momento apaixonado, romance no ar, mas quando saí do carro fiquei com o pé preso e caí! Mas caí de uma forma que fiquei com a cara e as mãos no chão e o rabo para o ar! E tive que me aguentar assim até ao final da cena. Quase impagável é a cara do coitado do João que, como tinha a câmara “em cima dele”, teve de ficar a olhar para mim naqueles propósitos sem rir e como se estivesse a olhar para o amor da vida dele. 

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Bloopers gentilmente cedidos pelo realizador Leonardo António

CLOSE UP! - Revê-se em alguma personagem que já tenha interpretado? Qual?
ALEXANDRA ROCHA Posso dizer que me revejo em alguns momentos da vida das minhas personagens, mas prefiro colocar a coisa ao contrário: perguntar a cada uma das “minhas” personagens se se revê na Alexandra Rocha ou em que parte da Alexandra se alimentou para poder existir (para além do corpo que já lhe empresto).
Nesse sentido todas elas, sem excepção, me deram algo (às vezes tiram também). Passo a rever-me nelas a partir do momento em que alcanço uma construção, por assim dizer. Por exemplo, a Telma do "Flatspin" [peça com encenação de Rui Luís Brás, produção do Teatro Tivoli e Pequeno Palco de Lisboa, que esteve em cena no Teatro Tivoli no ano de 2010] alimentou-se do meu lado masculino (ou menos feminino) e agressivo (selvagem quase).
A Gabriela mostrou-me, por exemplo, que não se deve julgar uma pessoa por aquilo que aparenta, porque a solidão dói e essa é uma dor que nos muda. Mostrou-me o que a necessidade de nos sentirmos vivos nos leva a fazer e que, tal como ela, todos nós podemos um dia ser levados ao nosso limite e fazer coisas que nos pareciam inconcebíveis, como enganar, ferir ou trair alguém… Mas que a pior traição é a que cometemos connosco.
Tenho que confessar que gosto mais de trabalhar nos meus antípodas, sinto-me mais confortável quando consigo definir uma linha de fronteira (caso da Telma).


CLOSE UP! - Sendo uma actriz que começou nos palcos, socorre-se dessa experiência acumulada no teatro para as suas performances tanto no pequeno como no grande ecrã?
ALEXANDRA ROCHA - Tecnicamente há muitas diferenças entre pisar um palco e trabalhar em frente às câmaras. Mas não é só isso: o ritmo de trabalho, o desenrolar da personagem e das suas emoções (que no palco é um trabalho contínuo, no espaço de uma hora a personagem nasce e morre), a energia com que o público nos alimenta dia após dia… É algo mais imediato e não é estanque, vai evoluindo com o espectáculo.
As câmaras exigem de nós uma naturalidade diferente, outra postura, outro tipo de trabalho... Mas vejo semelhanças no cinema e teatro, sobretudo no que toca à criação das personagens: a disciplina, a concentração, o processo de construção da personagem. Sim, penso que seja fundamentalmente isso que trago da formação no palco: a disciplina e concentração.


CLOSE UP! - Tal como Tarantino há algumas semanas atrás, pode revelar-nos quais os seus 10 filmes preferidos de 2013 até ao momento?
ALEXANDRA ROCHA Por fair play, não vou incluir o "Django Libertado" nem O FRÁGIL SOM DO MEU MOTOR [risos]. Aqui vai:
- “Hitchcock”, porque sempre gostei dele enquanto encenador e mestre de suspense e porque foca também a ideia de que atrás de um génio pode estar um outro... Além disso, o Anthony Hopkins está muito bem no papel!;
- “Paixões Proibidas”, de Anne Fontaine, uma história diferente, mas que pode ser tão real;
- “Os Amantes Passageiros”, de Pedro Almodóvar, porque... é o Almodóvar!;
- “La Vie d'Adèle”, de Abdellatif Kechiche, uma história de amor tão bem contada...;
- “Blue Jasmine”, de Woody Allen, com um trabalho notável da Cate Blanchett!;
- "O Mascarilha", de Gore Verbinski;
- “We Are What We Are”, de Jim Mickle;
- “A Gaiola Dourada”, de Ruben Alves, que é, sem dúvida, um dos filmes incontornáveis do ano;
- “Elysium”, de Neill Blomkamp, porque conta uma história que se pode tornar em realidade muito mais cedo do que pensamos (se é que, em certa medida, já não é assim);
- “Le Passé”, de Ashgar Farhadi.


CLOSE UP! - Numa altura em que os filmes centrados em super-heróis estão tão em voga, gostaria de encarnar algum em particular? Se sim, qual?
ALEXANDRA ROCHA Homem-Aranha, versão feminina, claro! Não é nenhuma crítica ao super-herói mas sempre achei as aranhas como tendo uma energia mais feminina. Talvez até pela “maldade” por vezes associada às mulheres [risos].
Mas pensando numa personagem que já exista, imagino algo no género da Catwoman, poderosa, enigmática, lutadora, mas que em si, não tem grande poder especial ou sobrenatural, a sua principal arma é trabalhada por si – é a sua sensualidade que desarma heróis e vilões.


CLOSE UP! - Já tem projectos futuros? Quais?
ALEXANDRA ROCHA Sim e estou muito entusiasmada, pois são projectos em que me tenho divertido e explorado coisas novas. Na companhia Pequeno Palco de Lisboa procuramos sempre fazer textos que tenham algum significado para nós, é uma “tradição” iniciada pelo Rui (Luís Brás) que, a meu ver, acaba por marcar a diferença no produto final. Assim, com este pensamento, entregámo-nos à peça infantil “A Bela é um Monstro” de D.M. Larson. E correu tão bem que vamos agora em digressão!
Fazer a personagem Bela foi uma óptima experiência, fez-nos ver que, de uma forma divertida, podíamos passar mensagens importantes às crianças e que, possivelmente, poderão deixar plantada uma sementinha de esperança… Pode ser que esta geração, aos poucos, perceba que a verdadeira Beleza, está dentro de nós, na nossa essência e não nas coisas que temos. Geralmente até cito o "Clube de Combate": “The things you own, end up owning you”.
E a 1 de Novembro estreou “A Carta” no Teatro Rápido, em Lisboa. É uma comédia de terror, escrita por Hugo Barreiros e tem sido um desafio muito recompensador. Estou a fazer microteatro pela primeira vez e tem sido óptimo voltar a trabalhar com o Peter Michael num texto que nos diverte tanto todos os dias.
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